O genoma é o código genético de um indivíduo, contido no DNA (gene que determina os caracteres hereditários do indivíduo). O conjunto de DNA’s (genes), é comparado a um livro, no qual estão escritas todas as instruções que guiam a formação dos seres vivos e são transmitidas aos seus descendentes. O genoma é encontrado no núcleo das células sob a forma de filamentos. É como se fosse uma escada flexível formada por duas cordas torcidas, ligadas por degraus que são chamados de bases. Essas bases formam a sequência do DNA de cada organismo. Desvendar o sequenciamento das bases contidas no DNA é desvendar o seu código genético, o segredo de sua formação e de seu funcionamento, pois o DNA é o manual de instruções usado pela célula para formar e caracterizar o indivíduo.
O genoma da criança traz codificada no seu DNA não apenas sua estrutura, seu tamanho, sua cor e outros atributos físicos, mas também sua inteligência, sua suscetibilidade a doenças, seu tempo de vida e até aspectos de seu comportamento.
Surge, então, o Projeto Genoma Humano (PGH), cuja meta é ler e entender esses códigos, que são as instruções do indivíduo. Em outras palavras, é nada menos que a busca do completo conhecimento da base genética do homem, incluindo a base genética das doenças.
De posse desse conhecimento, o objetivo seguinte é aplicar tecnologia para alterar, quando preciso, algumas das instruções, visando aperfeiçoar o ser humano e livrá-lo de doenças e outros fatores limitantes.
PROJETO GENOMA HUMANO (PGH)
O PGH é um empreendimento internacional e foi lançado nos EUA formalmente em 1990, como uma iniciativa do setor público, tendo a liderança do Dr. James Watson, na época, chefe dos Institutos de Saúde dos EUA. Mais tarde o PGH foi aberto ao setor privado através de laboratórios da Europa, Japão e Austrália que se uniram ao projeto. Atualmente o PGH ocorre em escala mundial, inclusive com participação brasileira, envolvendo mais de 5000 cientistas em cerca de 250 laboratórios. Essas pesquisas são coordenadas pelo HUGO (Human Genome Organization), que conta com a colaboração de cerca de 1000 membros de 50 países diferentes.
O objetivo do PGH é fazer o mapeamento dos genes existentes no DNA das células do corpo humano, ou seja, construir uma série de diagramas descritivos de cada cromossomo humano e depois, ordenar estes fragmentos, de forma a corresponderem a suas respectivas posições nos cromossomos.
Depois de completo o mapeamento, o passo seguinte é determinar a sequência das bases de cada um dos fragmentos de DNA já ordenados. O objetivo é descobrir todos os genes na sequência do DNA e desenvolver meios de usar esta informação para estudos da biologia e da medicina.
Espera-se, para 2003, o resultado final dos trabalhos de mapeamento e sequenciamento do genoma. É quando o homem terá acesso ao que muitos cientistas têm chamado de "O Livro da Vida" ou "O Livro do Homem". É quando o homem obterá o máximo de conhecimento sobre si mesmo.
Segundo o Dr. Venter, um dos responsáveis pelo projeto nos EUA, uma vez concluído o PGH, será possível, pelo menos teoricamente, conceber um ser humano, e conclui: "A experiência histórica mostra que qualquer coisa é possível, cedo ou tarde".
A REVOLUÇÃO DO GENOMA
A revolução que a biomedicina vai atravessar a partir do conhecimento do genoma humano já começou. As informações obtidas até aqui já vêm sendo largamente utilizadas por pesquisadores em todo o mundo, inclusive no Brasil, em diversas áreas e de diversas formas.
Para os cientistas envolvidos no sequenciamento dos genes humanos, se ao menos metade das expectativas geradas em torno do novo conhecimento se concretizar, o esforço já terá valido a pena e transformado para sempre o modo de ver e lidar com os seres vivos.
As informações do genoma humano são suficientes para produzir centenas de testes de diagnósticos genéticos, bases para terapias contra doenças como câncer, AIDS, mal de Alzheimer, e outras. O resultado será uma medicina mais personalizada e eficiente, voltada para a prevenção.
Vejamos algumas aplicações para o conhecimento obtido a partir do genoma humano:
TESTES GENÉTICOS: Mais de 800 doenças causadas por defeitos nos genes já podem ser identificadas a partir de exames de DNA. O método de diagnóstico é considerado extremamente preciso. A cura de doenças hereditárias ainda não é possível, mas constatar o defeito ficou mais simples. Basta uma gota de sangue. Além disso, medidas capazes de controlar ou contornar sintomas podem ser adotadas antes de eles aparecerem. O exame de DNA é preciso porque não se baseia em conseqüências, e sim nas causas.
REMÉDIOS PERSONALIZADOS: Um remédio não funciona da mesma maneira para duas pessoas. Algumas são mais sensíveis a efeitos colaterais e isso pode ser determinado por variações nos genes. Nos EUA, dois milhões de pessoas são internadas a cada ano por causa de efeitos colaterais provocados por medicamentos. Cem mil delas morrem. A partir do conhecimento do genoma, pessoas propensas a reações adversas poderão tomar remédios feitos especialmente para elas, com menos efeitos colaterais e mais eficiência.
INVESTIGAÇÃO CRIMINAL POR DNA: Testes genéticos vêm sendo utilizados como provas criminais nos EUA, ajudando a livrar americanos do corredor da morte. Cerca de 90 condenados já escaparam da execução, graças a esse tipo de exame. Por outro lado, o mesmo exame já levou mais de 1300 criminosos para a cadeia.
ENGENHARIA DE BEBÊS: Hoje já é possível saber se um embrião tem determinadas doenças genéticas logo no início da gestação. Cientistas acreditam que até 2020, será possível modificar embriões humanos por meio de engenharia genética, podendo fazer com que sejam mais resistentes a doenças. Acreditam ainda, que será possível escolher as características que os pais queiram ou não que os filhos herdem, como cor dos olhos, tipo de cabelo, etc.
DIFERENÇAS RACIAIS: A genética baniu de vez o conceito de raça. Negros, brancos e asiáticos diferem tanto entre si quanto dentro de suas próprias etnias. Essencialmente somos todos gêmeos.
Sem dúvida os conhecimentos obtidos através do genoma humano estão causando e vão continuar causando um grande avanço no campo da medicina. O uso adequado desses conhecimentos pode beneficiar e muito a humanidade, proporcionando uma melhor qualidade de vida e muitas vitórias no combate a doenças que hoje, nos assombram e assustam.
Mas, até onde ir na aplicação desses conhecimentos? Quando, como e onde parar? São perguntas que chegam junto com todo esse avanço, perguntas que trazem também sérias implicações éticas que devem ser tratadas com muito cuidado.
O GENOMA E SUAS IMPLICAÇÕES ÉTICAS
Onze anos depois de ter sido iniciado, o PGH está, na visão de vários cientistas, próximo de alcançar os objetivos para o qual foi criado, desvendar o genoma humano, o código genético do homem. O "Livro da Vida", já está quase decodificado. Discutir se o PGH é certo ou errado, penso não ser o mais importante a essa altura. O grande problema agora, gira em torno de perguntas como: o que fazer com esse conhecimento? Até onde é de competência do homem manipular a vida? Quem, pode ter acesso às informações genéticas de um indivíduo?
Essas e outras questões levantadas em torno do genoma humano, tem levado órgãos de todo o mundo, tanto do setor público como privado, a se mobilizarem e discutirem os aspectos éticos do PGH. Pesquisadores e Instituições, já indagam se o conhecimento do material genético de uma pessoa, não causará sua exclusão social.
Nos EUA, esse é um problema que já tem acontecido. De 917 pessoas entrevistadas, 455 disseram já ter sofrido discriminação por parte de seguradoras, que tem se negado a cobrir certos casos, com base em informações genéticas. O problema é que é extremamente difícil impedir que essas seguradoras tenham acesso à ficha médica de seus segurados. Para evitar problemas de discriminação, 26 Estados americanos, já sancionaram leis que proíbem a discriminação ou exclusão por parte das seguradoras a indivíduos, com base em predisposições genéticas.
A indústria de seguros opõe-se tenazmente às novas leis e argumentam que se lhes for negado por lei o acesso a essas informações genéticas, é provável que tenham que fechar as portas, e já se cogita a existência de seguros especiais com base nessas informações.
Também empregadores se mostram cada vez mais interessados na utilização de testes genéticos para avaliar pretendentes empregados e até a carreira profissional de seus funcionários.
Empresas que investem no preparo e treinamento de seus funcionários, a longo prazo (principalmente na área executiva), se preocupam em não desperdiçar tempo e principalmente dinheiro, com funcionários que não possam prosseguir por longo tempo em suas carreiras.
Se uma mulher portadora de um gene de câncer de mama, ou um homem com predisposição a um infarto ou derrame, têm suas informações genéticas acessadas, isso se tornaria um fator determinante na contratação ou promoção.
Um jovem com 20 anos, por exemplo, que tenha predisposição a ter a doenças de Huntington, que só aparece na meia-idade (a partir dos 40 anos), poderia ser recusado por uma empresa num processo admissional. Mas, e seus 20 anos de vida saudável??? Afinal, é possível que algumas predisposições jamais se manifestem, e caso se manifeste, talvez nem seja algo tão sério que não possa ser tratado, ou quem sabe, até curado.
E não pára por aí, as informações sobre os genes de um indivíduo poderiam ser consultadas, por exemplo, por agências de adoção, escolas, órgãos públicos, e até por pessoas que tenham a intenção de tornar públicas essas informações a respeito de um determinado indivíduo, usando isso como uma arma eleitoral, por exemplo.
Outra polêmica a ser considerada é a manipulação genética. A questão é se é correto manipular ou modificar genes para que as pessoas transmitam a seus filhos determinadas características. Hoje já se usam técnicas de manipulação genética na agricultura e na pecuária, para se obter animais e vegetais com melhores qualidades. Se isso for aplicado também aos seres humanos, teríamos então, um verdadeiro "Projeto de Seres Humanos", com homens e mulheres fabricados para atender certas características e aspectos pré-definidos (pré-conceitos).
Se passarmos a encarar o homem meramente como um produto, estaremos deixando de lado o verdadeiro valor da essência humana: a identidade própria de cada indivíduo.
Numa sociedade onde pessoas são discriminadas por aspectos como condição financeira, raça, nacionalidade, religião, etc., corremos o sério risco de nos vermos assombrados por um novo e mais terrível aspecto de discriminação: a discriminação genética. Uma sociedade dividida entre homens e mulheres geneticamente perfeitos ou não, onde as oportunidades não sejam iguais pra todas as pessoas, mas, onde as melhores oportunidades sejam voltadas para um grupo superior, restando aos demais, achados inferiores, a subsistência às margens de uma "sociedade geneticamente perfeita, mas, moral e eticamente, corrompida".
CONCLUSÃO
O PGH demorou anos para ser pensado e executado. As possibilidades de hoje, resultantes das descobertas feitas até aqui, são um misto de encantamento e temor. Mas, ele é uma realidade, e está mais evidente do que se imagina.
Os benefícios que trará para o homem são muitos, e não podemos começar a ver o PGH como um monstro da ciência, que vai desencadear sobre a humanidade uma série de problemas e fatores negativos. Quando penso na melhoria da qualidade de vida, na cura de doenças que até aqui têm sido causas de sofrimento, morte e tristeza, na prevenção de problemas mentais, vejo, no PGH, a expressão de uma dádiva de Deus ao homem, a inteligência. Mas, quando penso na ambição, na ganância, na vaidade, na soberba, na falta de amor e respeito à vida, na busca de interesses próprios, como aquilo que tem impulsionado cientistas, pesquisadores e estudiosos nessa busca de conhecimento, peço a Deus, e essa deve ser nossa oração, que possam existir homens e mulheres envolvidos nesse projeto, que busquem d’Ele, a sabedoria para poderem usar, de forma correta, todo o conhecimento que têm adquirido.
Não podemos alimentar a expectativa de que o genoma será a última palavra em natureza humana. Ser humano significa mais do que ter um genoma humano escrito na química do DNA, é ter uma identidade própria, pessoal e, por que não dizer, sagrada.
Samuel de Oliveira é pastor e
colaborador do

