Vivemos o tempo do “pós”: pós-industrialização, pós-modernidade, pós-reforma, etc. Presenciamos também a época do “des”: desreferencialização, dessubstancialização, desindexação, descartabilidade, etc. Tais prefixos nos fazem pensar que ultrapassamos alguma coisa, alguma fase, alguma situação, mas também nos ajudam a entender que nessa superação algo ficou para trás, sendo abandonado, descartado, tornando-se ultrapassado, anacrônico.
Esta situação faz-me pensar na dificuldade que paira muitas vezes em nosso meio de acompanharmos o espírito dos tempos, o “zeitgeist”, de maneira crítica e consciente, aperfeiçoando, moldando e contextualizando os nossos modelos. Trabalhamos às vezes sobre modelos que já foram significativos um dia, tornando-se sacralizados com o tempo e hoje muitas vezes obsoletos. Por um lado, alguns desses modelos não refletem a Bíblia, porque não são alicerçados em princípios bíblicos, e por outro, demonstram uma total desatualização em relação aos padrões contemporâneos, pois se tornaram temporalmente descontextualizados.
Mais especificamente, isso vem acontecendo com insistência em nossos modelos administrativos eclesiásticos. Apesar de reafirmarmos categoricamente que o correto modelo administrativo é estruturado sobre a democracia, sabemos que esta pode muitas vezes se degenerar em demagogia, oligarquia e até em tirania. Por isso, a democracia precisa ser vivida em sua plenitude, tanto por quem recebeu a autoridade para governar (o governante), como por quem concedeu a autoridade para governar (o povo, um grupo, uma comunidade, etc). O governante deve exercer a autoridade com justiça, não em causa própria ou dos seus, mas para o bem do povo. Por isso não deve buscar os seus interesses próprios. O grupo deve, por sua vez, acompanhar o ato de governar do líder, apontando os desvios dos projetos iniciais, quando ocorridos, e ajudando-o a corrigí-los para o bem de todos.
Infelizmente, nem sempre a liderança em “nossos arraiais” é exercida assim. Fala-se muito em democracia, em ministério participativo e colegiado, em Qualidade Total, em distribuição de autoridade e responsabilidade, mas na verdade ruma-se para o sentido oposto. É incrível a onda de autoritarismo e de centralização de poder existente no meio evangélico contemporâneo! Embora alguns afirmem que este é um problema ligado às tendências fundamentalistas do mundo hodierno, na verdade o que se percebe é a presença de nefastos “jogos de poder”.
Em nome do poder, absurdos e contradições são cometidos, valores são abandonados e ideais são perdidos de vista. Em nome do poder alguns esquecem o tão falado amor, para ter a liberdade de trucidar os outros. Por amor ao poder outros sacrificam valores significativos como companheirismo, fidelidade, verdade, honestidade e transparência para que trapaças sejam engendradas. Por amor ao poder sacrificam-se os homens em favor das estruturas e instituições. Por causa do desejo de poder o outro deixa de ser “uma bênção” e se torna um problema em nossas vidas. Maldito poder, que faz com que muitos neguem os mais altos valores cristãos !!! Maldito poder que se contrapõe ao desejo de unidade !!! Maldito amor ao poder que se torna uma das maiores armas do Não-Ser !!!
Precisamos de modelos administrativos eficientes, competentes, de qualidade, objetivos, organizados e visionários. Mais do que isso, necessitamos de modelos administrativos alternativos, mas acima de tudo cristãos, firmados no amor, na descentralização, na cooperação, na valorização do outro, na participação, na transparência, no diálogo, no compromisso com a verdade e com a justiça. Modelos onde a nossa justiça possa “exceder a dos escribas e fariseus”! Modelos onde o líder não busca ser servido, mas servir a todos os outros; onde líder não é o que manda, mas o que serve ! Buscamos modelos administrativos que proporcionem o crescimento de cada um e do grupo como um todo, não apenas de alguns escolhidos ou daqueles que estão em evidência !
Que a “crise do discurso” existente no mundo hodierno não iniba “o discurso competente” que começa a ser vislumbrado nos arraiais evangélicos, marcado pela relação proporcional de equivalência entre teoria e prática, e discurso e ação. Que continuemos a elaborar nossos modelos teológicos, éticos, relacionais e administrativos a partir de princípios escriturísticos e que tais práticas modelares não manifestem contradições. Que o amor ao poder, tão comum no mundo contemporâneo, seja trocado pelo poder de amar (Tillich) e que somente assim compreendamos o real sentido da liderança e administração cristãs: o serviço. Que o espírito de competitividade seja trocado pelo de cooperação, e que unidos construamos instituições mais solidárias. Que também no meio evangélico vivenciemos o tempo do “pós-autoritarismo”e da “des-centralização”. Só assim, os fracassos administrativos se transformarão em vitórias ministeriais.
Pr. Diogo Magalhães
Ex-Prof. de Teologia Contemporânea no
STBE – Semin. Teológ. Batista Equatorial – Belém/PA
domingo, 24 de fevereiro de 2008
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